Sneak peek do oitavo capítulo de Illegitimate.
O entardecer começou a me preocupar quando olhei a janela e vi que já escurecera. Mamãe ficará preocupada se eu não voltar logo.
Apenas Andrew notou minha discreta apreensão, ele inclinou-se em minha direção e disse:
- Eu te levo pra casa assim que você quiser.
Ao ouvirem isso a conversa se aquietou e somente Nikko não se conformou com o que ouviu.
-Ah não, Andrew! – disse ela indignada, como se ela fora ofendida. – Por que você diria algo assim. Ainda é sedo, e você esta sendo rude. Parece ate que estamos expulsando a visita. Que coisa feia de se fazer!
Seus enormes e exóticos olhos percorreram todos á mesa, esperando algum apoio, mas ninguém se manifestou.
Eu intervim, antes que as coisas pudessem ficar desconfortáveis.
- Ele está certo Nikko, eu estava mesmo querendo ir.
- Oh, você não gostou.
- Não é isso! Não me entenda mal, o chá foi maravilhoso. E vocês todos também são muito legais. Mas é que minha mãe...não sabe exatamente onde estou. E eu tenho que tomar cuidado com o que faço de agora em diante.
Assim, a linda criaturinha entendeu do que eu estava falando, entendeu que eu ainda precisava me adaptar a tudo isso. Não demorou muito e ela recuperou o aspecto descontraído e quase infantil, que simplesmente lhe pertencia.
- Então não vamos deixar sua mãe preocupada. – disse Andrew levantando-se.
- Promete que voltara amanha? – perguntou Nikko inclinando a cabeça de lado, lembrando um fofo filhotinho quando pede um biscoito. – Por favor, por favor, por favor?
- Am...acho que posso vir depois da aula na Joe´s. – lancei meu olhar ao professor.
Ele retribuiu com um sorriso sereno.
- Nos veremos amanha então. – disse ele.
- Sinta-se a vontade para vir nos visitar qualquer dia e a qualquer hora. – complementou Sandra. – As portas estarão sempre abertas pra você.
Andrew queria me levar de carro, mas eu sugeri que andássemos. Temia que um carro pudesse chamar a atenção da mamãe, e isso era tudo que eu não precisava agora.
Não havia vento essa noite, estava tudo extremamente quieto. Apenas nossos passos, pouco audíveis na penumbra da rua.
Já estávamos perto demais da minha casa e eu tinha que criar coragem para devolver o seu casaco.
Mais como? Minhas mãos tremem só de pensar no assunto.
Nós paramos nos degraus da entrada e eu subi um a mais ficando um pouco mais alta que ele. Andrew levantou levemente a cabeça para poder me olhar, e a luz da entrada iluminou seu extraordinário rosto. As madeixas negras, cujas pontas pousavam em seus largos ombros cintilavam em algumas partes, de maneira graciosa.
Sim, eu tinha certeza. Ele não poderia ser deste mundo.